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A Maçonaria e o Cálice da Amargura
 

A Maçonaria e o Cálice da Amargura


  

 

Cebes, que nasceu em Tebas, cidade da Beócia, no Século V a. C., em seu livro Quadro da Vida Humana, descreve um enorme recinto onde vivem seus personagens.  Uma multidão de candidatos à vida aglomera-se à porta.  Um gênio, representado por um venerável ancião, dirige aos candidatos atilados conselhos.  Suas sábias advertências sobre a conduta que se deve observar perante a vida, são de imediatamente esquecidas pelas almas ávidas de viver.  Tão logo entram no fatal recinto, sentem-se obrigadas a desfilar diante do trono da Impostura, mulher cujo semblante é de uma expressão convencional e que tem maneiras insinuantes.  A Impostura lhes apresenta um copo.  Não se pode entrar sem beber pouco ou muito.  Para viver intensamente, muitos bebem a grandes sorvos o erro e a ignorância; outros, mais prudentes, apenas provam a mágica beberagem e, em conseqüência, esquecem menos os conselhos recebidos e não sentem tanto apego à vida. A passagem do cálice com bebida doce ou amarga lembra esta antiga citação. Este rito nos inicia no grande mistério da vida que nos brinda com suas doçuras, mas nos ensina a aceitar, também, seus rigores e crueldades.


 

A vida não é cruel para quem a começa, a criança, mimada por sua mãe, a criança não manifesta senão a alegria de viver; do instinto, ela reivindica seu direito à vida, que parece não lhe ser dada senão para permitir que goze dela sem reservas. A juventude ensina, todavia, que nem tudo é encanto na vida que está longe de nos ser outorgada gratuitamente. A necessidade, para cada um, de ganhar sua vida não tarda a se impor. A despreocupação infantil não dura senão um tempo, porque, rapidamente, a vida nos instrui de suas rudezas e, desde que nos tornemos fortes, ela exige que aprendamos a suportar as durezas da existência: mostrar-se covarde diante da dor é confessar-se indigno de viver.


 

Como os antigos, quando aceitamos a vida, nossa tendência é de provar tão-só o agradável e desejamos a felicidade como se pudéssemos consegui-la gratuitamente sem havê-la merecido.  Isso é desconhecer em absoluto a Lei do Trabalho que vale, necessariamente, para toda a vida.  Viver é, em suma, cumprir uma função e, portanto, trabalhar. A Vida é a tal ponto inseparável do trabalho e do esforço que não se a pode conceber na inércia.  Nossa existência é ação.  Descansamos para repor as forças, a fim de poder prosseguir com nossas atividades.  Quem deixa de trabalhar renuncia à existência: o descanso definitivo esteriliza e equivale à anulação, à morte! Desde a saída do paraíso o homem se viu obrigado a trabalhar para prover suas necessidades. Beber malgrado a amargura é aceitar estoicamente os rigores da vida. O hábito nos alivia as penas e as dores que aprendemos a suportar.


 

Sabemos que é possível fugir de toda pena e trabalhar de modo que a vida só nos proporcione satisfações.  Mas essa tática não produz mais que engano, e a vida sabe vingar-se daqueles que não querem acatar suas leis.  Pelo menos, o fastio de viver será sua herança.


 

O místico purificado leva aos seus lábios o cálice do Saber Iniciático, no qual sua inteligência sorve uma nova vida, isenta das brutalidades profanas.


 

Concebendo uma existência de doçura em meio a irmãos que sonham apenas em ajudá-lo em todas as coisas, o recém-iniciado na maçonaria sente-se feliz e satisfaz-se com uma água deliciosa. A reflexão, porém, revela-lhe as responsabilidades que ele assume em razão de seu avanço espiritual. O ignorante, que não compreende o sentido da vida, pode abandonar-se ao egoísmo; vivendo apenas para si, ele não se coloca a serviço da Grande Obra, e nada há a se lhe reprovar, se, respeitando os outros, ele leva uma honesta existência profana. De outro modo é a vida iniciática, mais exigente, impõe o devotamento, o esquecimento de si, a constante preocupação com o bem geral. A preocupação com o outro angustia a alma generosa que sofre com as misérias humanas; querendo aliviá-las, o maçom se expõe a não ser compreendido, a ser perseguido, provando, assim,  a amargura. Sua recompensa e viver no bem, pois vive para o bem do próximo.Para o Iniciado, impõe-se tanto mais a honra de viver, quanto mais ambicione possuir os segredos que são, precisamente, os da própria vida.  A Iniciação Maçônica ensina a viver uma vida superior, ou seja, em perfeita harmonia com a Grande Vida.  Compreender bem a vida: eis aqui o objetivo de todo aspirante à sabedoria. Que nos importam os segredos da morte?  Em seu devido tempo, nos serão revelados, e não há por que se preocupar com eles. Em troca, devemos viver, e viver de acordo com as exigências da vida. Tal é o ensinamento da Maçonaria.


 

A vida faz estas exigências que poderão parecer tirânicas ao homem comum que não tenha compreendido a existência humana e sua inexorável necessidade de se submeter ao trabalho.  Em meio a trabalhos e penas, lamenta-se e revolta-se airoso contra a dor que lhe foi imposta.  Esse suplício dura enquanto não se determina a encontrar o paraíso, tão pronto saiba renunciar ao mesmo.  Sofrer, trabalhar: significará isso, por acaso, decadência?  E quem pode ser forte e poderoso sem antes haver sofrido cruelmente?  A alma que quer conquistar a nobreza e a soberania deve buscá-las nas fragas do sofrimento. É sabido que o crescimento espiritual passa pelo amor e pela dor, basta saber aproveitar a dose desses que a cada um de nós é destinada.


 

Isto não significa, todavia, que seja indispensável buscar o ascetismo ou tormentos intencionais, pois a vida saberá nos proporcionar provas salutíferas e nos brindará o cálice, convidando-nos a esvaziá-lo com firmeza, sem necessidade, de nossa parte, de acrescentarmos qualquer amargor.  O Iniciado aprende a não temer a dor e sofre com coragem, mas não vive obrigado a amar nem a se comprazer com o sofrimento.  Tem fé na vida.  Sabe-a misericordiosa, apesar de suas leis inexoráveis, e saboreia as doçuras que nos reserva como compensação das penas que nos inflige.


 

Como iniciados devemos buscar é a harmonia, o acordo harmônico com a vida. Se torna indispensável uma penosa aprendizagem da Arte de Viver, esta é a Arte que praticam os Iniciados.  A vida é sua escola, onde não pode ser admitido aquele que não está decidido a beber do cálice da amargura. Tal é a exigência da Maçonaria.


 

Sem dúvida, a vida nos brinda felicidade.  Todo ser acredita ter direito a ela e esta é sua constante aspiração.  Vivemos de esperanças, e nos parecem mais leves as penas de hoje, se as compararmos com as alegrias de amanhã.  A vida corrente pode trazer para nós certas ilusões e tratar-nos como adolescentes, mas a vida iniciática considera-nos homens já maduros, pouco dispostos, portanto, a deixar-se levar por ilusões.  A felicidade nos é assegurada, contanto que saibamos buscá-la nós mesmos.  De nada somos credores sem merecimento. Se a vida nos é dada, é para utilizá-la como é devido, não para desfrutar dela sem pagar tributo.  Saibamos, pois, considerá-la sob seu verdadeiro aspecto.  Entremos a seu serviço dispostos a consagrarmo-nos ao estrito cumprimento de nossa obra de vida, nossa missão terrena que os alquimistas chamavam de Magna Obra.


 

Em todos os tempos, a Iniciação foi privilégio dos valentes, dos heróis dispostos a sofrer, dos homens com energia que não pouparam seus esforços.  É a glorificação do esforço criador do sábio que chegou à plena compreensão da vida, a tal ponto que, ao viver para trabalhar, consegue romper as correntes do presidiário condenado a trabalhar para viver.  Diz o adágio: Trabalho equivale à Liberdade, e ainda seria melhor dizer que nos libertamos da escravidão através de nosso amor ao trabalho.  É, portanto, questão de desejar o trabalho, de buscar o esforço fecundo sem temor ao sofrimento que possa acompanhar sua realização.  Então a vida será, para nós, amena, confortadora e bela.


 

Deste modo fica explicado o simbolismo da poção cuja amargura não deve nos desanimar.  Podemos devolver-lhe o primitivo sabor, aceitando, simplesmente, a obrigação de beber, até o fim, o Cálice Sagrado da Vida.


 

Foi consultada obra de Oswald Wirth na elaboração do texto acima.


 

 Honório S. Menezes, 33°, REAA.


 

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